Relacionamentos afetivo-sexuais entre mulheres no presídio
DOI:
https://doi.org/10.21527/2179-1309.2026.123.17475Palabras clave:
Mulheres, Prisões, Sexualidade, Gênero, Relações SociaisResumen
Os relacionamentos afetivo-sexuais entre mulheres privadas de liberdade constituem experiências atravessadas por desigualdades de gênero, controle institucional e fragilização dos vínculos sociais. Este estudo teve como objetivo analisar os fatores que influenciam os relacionamentos afetivo-sexuais entre mulheres privadas de liberdade, considerando o contexto institucional, as relações de poder e os marcadores sociais que atravessam essas vivências. Trata-se de uma pesquisa de campo, de abordagem qualitativa, realizada em um presídio feminino no município de Salvador, Bahia. A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas semiestruturadas com 13 mulheres privadas de liberdade, participantes de oficinas socioeducativas, e a análise foi conduzida a partir da análise de conteúdo. Emergiram quatro categorias analíticas: abandono familiar e parceria; necessidade; segurança; e atração física. Os resultados indicam que os relacionamentos afetivo-sexuais no cárcere configuram-se como estratégias de enfrentamento do encarceramento, associadas à carência emocional, à busca por proteção e à reconstrução de vínculos afetivos diante do abandono familiar e do controle institucional. Observou-se ainda que a atração física se articula a expressões de gênero performativas, especialmente à valorização de performances masculinizadas, compreendidas como construções sociais situadas e não como disposições naturais ou patológicas. Conclui-se que a vivência da sexualidade no cárcere feminino é relacional, dinâmica e socialmente construída, sendo atravessada por marcadores interseccionais de gênero, raça, classe e sexualidade, o que evidencia a necessidade de políticas e práticas institucionais que reconheçam os direitos sexuais e a complexidade das experiências afetivas das mulheres privadas de liberdade.
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